28/08/2016

Escolhas



Querer cultivar galinhas no quintal de casa, fazer seus próprios brinquedos, seu alimento, fazer festa de aniversário infantil com bolo integral, frutas, sem refrigerantes e sem balas, bandeirinhas pelo quintal, com gente de pés descalços, sem presente algum, trazendo nas mãos apenas a vontade de estar junto. Nenhuma menina vestida de mini adulta ou de "princesa da Disney", nenhum menino com a roupa do homem de ferro ou armas de brinquedo, as fantasias todas feitas a mão e por eles mesmos. O parabéns pra você cantado em uma dança circular com o aniversariante e sua família ao centro da roda recebendo todo o afeto direcionado a eles, os adultos sem preocupações de que as crianças se machucassem nos brinquedos modernos (eles não existiriam nessa festa), a brincadeira construída: corrida do saco, bolha de sabão, caça ao tesouro, esconde esconde, amarelinha, pega pega, pintura, modelagem, cantos e danças. Sem lembrancinhas com balas, doces e brinquedos, a lembrança poderia ser algo construído pelo aniversariante, ou: nada, a não ser um abraço caloroso e a memória afetiva daquele momento. Nenhuma monitora responsável pela maquiagem ou pintura nas unhas das meninas, as meninas com roupas confortáveis e de criança para subirem nas árvores ou correr, correr e correr.




Acredito num mundo onde as crianças pareçam crianças, se sujem, brinquem, corram, pulem, subam em árvores, se machuquem, consigam passar uma tarde brincando juntas sem celulares e sem brinquedos eletrônicos, crianças capazes de suportarem as frustrações sem ganhar nada em troca por conta disso, acredito numa escola que não ofereça recompensas (pirulitos, balas, brindes) só por que a criança fez o deveria ter feito, creio num mundo onde os pais tratam as crianças como crianças sem se preocuparem precocemente com o vestibular que seus filhos farão, "ninguém nasce pra fazer vestibular, a gente nasce pra ser feliz" (filme Tarja Branca), claro que quero que meus filhos e todas as crianças do mundo cheguem a universidade, o conhecimento adquirido é importante e transformador. Acredito numa educação e numa pedagogia holística em um dos mais amplos sentidos que se pode dar a essa palavra. Desenvolver desde criança os pontos de vista:  físico, anímico e espiritual, de forma progressiva e afetiva, cultivando o AGIR, o SENTIR e o  PENSAR, explorando o sensorial, o emocional e o pensamento concreto, para mais tarde explorar com facilidade o abstrato. Viver e sentir para depois pensar sobre o que se viveu e sentiu.




Conversando com a mãe de uma colega da minha filha ela me disse: "vocês ainda não foram para a Disney com essas crianças menina, tão esperando o quê?? daqui a pouco é tarde, eles vão perder o encanto pelas princesas, pelos personagens, vai ficar tudo mais chato, por favor, providencia isso, principalmente para a Raquel, ela é uma menina, vai enlouquecer com o castelo, tu vai ver como ela vai ser mais feliz..." Eu educadamente (as vezes queria ser menos) lhe respondi que tinha entendido sua opinião se ela não tivesse acrescentado que minha filha "seria mais feliz" se fosse para a Disney, lhe disse também que eu nunca tinha ido para a Disney e que meus pais mal sabiam que já existia o Mickey e toda a sua trupe, que eu nunca tive nenhuma das princesas e que nunca fui infeliz por isso, na verdade, do que eu gostava, quando criança, era de brincar de fazer comidinha de barro e mato com a minha irmã e de descer de carrinho de lomba com meus irmãos num morro que tinha perto da nossa casa. Ela ficou meio desconcertada, mas insistiu: "eram outros tempos Rosane, pelo amor de Deus, que criança ainda faz comidinha de barro?" Eu: as minhas!! Ela deu um sorriso amarelo e completou: "desisto de ti!" 
Fiquei pensando se eu seria uma pessoa de se desistir, o que estaria atrás dessas palavras? 
Claro que meus filhos não vivem apenas no meio do mato, nem tão pouco só brincam com barro e folhas, eles têm acesso a tecnologia sim, vamos em shopping (muito pouco), comemos bobagens (as vezes), eles conhecem os personagens da Disney (de passagem) e nem gostam muito deles, assistem TV (mais músicas do que filmes e desenhos), mas ainda não foram para a Disney, talvez irão, não sei, preferiria fazer uma safári na África ou explorar a Patagônia. Acontece que cada pai, mãe, vó, tia ou qualquer outro membro da família educa e pensa de um jeito, somos todos pensantes diferentes e não seria capaz de dizer a ninguém: "eu desisto de você".
Acho que ninguém, ou quase ninguém, tem a intenção de educar uma criança para a infelicidade, o que ocorre é que temos conceitos diferentes da FELICIDADE.






Oferecer aos filhos um punhado de galhos de árvores para que eles construam um material de contagem e de cores frente a tantas ofertas desse material no mercado, modelos lindos, incríveis, duradouros e coloridos parece coisa de "pais bicho grilos" e para os olhos de algumas pessoas seus filhos não evoluirão nesse mundo competitivo e rápido que é o nosso. Mas de verdade AGORA eu não penso muito em concorrências ou progresso, penso mesmo que é hora de aprender brincando, construindo e criando, e se puder fazer tudo isso sem prejudicar a vida na terra e suas espécies, muito melhor. Os elementos naturais trazem um lado sensorial maravilhoso para quem lida com eles, têm cheiro, textura, formas diferentes e são lindos, temos muito pelo nosso quintal e pomar, eu seria uma tola se não os explorasse. Fazemos nossa própria massa de modelar, com mais textura e mais cheirinho, só para exercitarmos os sentidos do corpo e da alma, construímos nossas fantasias e chapéus, alguns brinquedos e bolas, fizemos nosso próprio sabão para as bolinhas de espuma e não fazemos isso para "poupar dinheiro", se bem que isso também é importante e pensado, mas não é nosso primeiro impulso, o que esperamos com isso é que nossos filhos valorizem mais o fazer junto, o afeto e respeito que isso envolve. 






A brincadeira preferida por aqui é se sujar nas poças de lama que se formam pelo pomar depois de um dia de chuva, o prato preferido não é o do fast food famoso, o lugar preferido é lá fora no meio das árvores e do lado da cachorrada se rolando no chão e dando beijo em todos, a viagem sonhada não é pra Disney, as vezes a viagem mais desejada é ir na casa da vó, essa sim tem um valor enorme e é capaz de nos deixar mais felizes, somos assim, em especial: eu sou assim, mas não julgo como errado o jeito que cada um escolhe para educar os seus, apenas acredito no que nós escolhemos, na verdade sem nenhuma certeza absoluta e imutável de que seja o melhor, por ora é esse o caminho que queremos caminhar, errando, acertando, experimentando e colocando REPARO NA VIDA, na nossa e na dos outros, todos os outros: humanos, animais, vegetais, enfim todas as espécies. Tentamos educar nossos filhos para um mundo de amor e de respeito, porque acreditamos no amor e no respeito.
 


 







E muito diferente o que você sente do que a sociedade acha que você tem que sentir, o importante é olhar para dentro de si, sem tanta culpa, sem tantas amarras e apegos a aquilo que nem acreditamos.


Grata pelo carinho, respeito e por vocês estarem aqui.


9 comentários :

  1. Oi Rô,
    Sabe que depois que vim morar na roça, a criar galinhas fico a pensar em como seria bom criar uma criança nesse ambiente correndo atras das galinhas. Balançando num balanço de madeira improvisado sobre arvores( que tenho por cá). Minha noção de infancia, do que é ser criança é justamente a mesma que a sua. É ter contato com a terra, é sair pra brincar la fora...Conforme ia lendo seu texto encontrei minha infância nas suas palavras. De como era bom brincar na chuva, poças de lama...Hoje em dia são crianças enfunadas dentro de casa presas pelos joguinhos dos celulares. Como falei pra ti, sou mãe por tabela vulgo tia. E me incomoda o fato das crianças ficarem presas a um celular. Antigamente quando os primos vinham nós nos ajuntavamos pra brincar lá fora, andar de bike. Hoje é todos unidos pra jogar minecraft. No nosso tempo quando a criança chorava nos davamos a chupeta hoje damos o celular; olha as luzes!!!!
    Tenho uma sobrinha de quase dois anos que usa o celular e sabe o lugarzinho certo pra apertar pra ouvir musicas e tralala. Alguns chamam isso de a nova infância; crianças antenadas , tecnologicas...Eu ainda gosto da velha e boa infancia.E quer passar o mesmo para os meus...
    Não adianta ter uma nova geração antenada e não dá a elas reais valores como respeito. Essa nova geração tem me assustado justamente pela falta de respeito, amor...Nossa há tantas coisas que penso e que não caberia num comentario. Mas você conseguiu expressa no seu texto tudo o que penso. E si um dia for tachada de bicho do mato...bicho do mato sim, mas feliz.Bjinhos

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  2. Te li atentamente e a cada parágrafo contigo concordava. Pena que os pais acreditem que a Disney é o máximo de alegria a proporcionar. Também nunca fui, nem levei nossos netos. Os que foram com os pais lá estiveram e não faz minha cabeça aquela parafernália, filas pra tudo,etc...

    Vai firme, continua assim e depois eles escolherão o que querem ou não fazer. Infelizmente criamos os filhos do nosso jeito e ao virarem adultos, tantas vezes nem reconhecemos as nossas lições dde simplicidade, tudo mais. Porém, tentamos! Adorei te ler. Só mais um pouco: eu fazia as lembrancinhas doa aniversários e toda festinha em casa.Passava um tempo recortando, pintando, costurando,Tentei fazer para alguns netos ainda, mas a mídia era outra já! O comprado parece ter chegado e tantas vezes só ele é valorizado.Por isso, acredito que deva haver uma volta novamente...Aniversário d criança com trota de bolacha, brigadeiro, cachorrinhos, coisas simples e LIBERDADE DE BRINCAR,SE SUJAR.

    um beijo, lindas fotos de belos momentos! chica

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  3. Adorei a sua postagem e penso que realmente tem uma pressão para as crianças gostarem de Disney e esses super heróis (cada vez mais bombados).... Concordo com vc que o conceito de felicidade muda de acordo com a vivência, o histórico e as reflexões que cada um faz. Precisamos saber respeitar as diferenças e entender que cada um cria os filhos como quer. Eu adoro o seu modo de se portar e vivenciar as experiências com os seus filhos. Já viu o filme / documentário "O sentido da vida" ?!? É incrível e fala sobre a primeira infância. Super vale a pena. Bjs

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  4. Coloquei o nome do filme errado. rsrsrs O certo é "O começo da vida" ;)

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  5. Viajando no seu post ... rsrs ... pois, também acredito em tudo isso !!! A Laura cresceu com amigas que tinham todas as bonecas Barbies da moda ... festas bacanas ... e viagem de 15 anos para Disney!!! Nunca choramingou por não ter bonecas bacanas ... as festinhas de aniversário era eu quem fazia os enfeites e nunca quis ir a Disney, dizia que queria ir para a Europa, nossos passeios de férias sempre tinha alguma passagem em lugares para se andar no mato, cachoeira e afins !!! Hoje ela faz Engenharia Florestal na Federal de Viçosa e posso garantir que ela não traz nenhuma infelicidade no peito ... É minha amiga, criamos filhos para interagir com a vida em todos os sentidos, quando a maioria cria filhos para "ter" e não para "ser"!!! Nadar contra a correnteza com certeza nos torna mais fortes ... beijo grande !!!

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  6. Oi Rosane! Que lindo texto e compartilhamento de pensamento. Penso que você está certa. Somos diferentes e criamos nossos filhos conforme o que pensamos ser certo. Isso é a maravilha do ser humano, respeitar as diferenças sem querer mudar o outro. As diferenças são importantes. Penso que o mais importante é o respeito e o amor. Digo para minhas colegas que é nesse heterogeneidade que somos homogêneas.....kkkkk.
    Um grande abraço.

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  7. Um texto incrível. Simplicidade e amor e envolvimento, sem dúvida uma linda maneira de educar!
    Beijo.

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  8. Sem amor nós nada podemos ser. O amor é Deus e Deus é amor. Educar é uma arte e os melhores artistas são aqueles que cultivam a simplicidade em seu trabalho. Respeitar as diferenças e aceitar ser diferente é ótima escolha para o crescimento humano. Você está no caminho certo.

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  9. Lindo! É isso! Nem tenho filhos ainda mas ja acho que esse seu jeito é um jeito feliz de criar seus filhos. Te achei prlo insta pela #pequenasfelicidades e comecei a te seguir e hj vim parar aqui. Continue inspirando! ��
    Gabriela do @pequenas_felicidades
    Tb tenho um blog: devaneiosdagabi.com.br
    Bjo

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